A Fofoca Humana

O psicoterapeuta José Ângelo Gaiarsa aponta, como o principal fator que modela a vida das pessoas, o medo de ser fofocado. Discorre sobre a atuação da fofoca como forma de coerção social nessa relação indivíduo versus sociedade.

“O medo de ser falado – fofocado – é com certeza o mais frequente motivo de supressão de nossos pensamentos e desejos pessoais. ‘Que dirão os outros’ ou ‘ que dirão se souberem’, é o mais frequente argumento que usamos para não fazer o que nos agrada, o que nos interessa e, inclusive, muitas vezes, o que nos é necessário”.

Vê-se a fofoca como trágica, a considera como o principal instrumento e motivo de toda autocensura, de toda autocastração e de toda irrealização pessoal. Existe a fofoca externa e interna, o homem faz fofoca sobre si mesmo em meio aos pensamentos que cultiva, o que também gera repressão nas próprias atitudes. “Nosso diálogo interior é tão rico de fofoca como o diálogo exterior”.

A fofoca nutre-se de preconceitos. Define-os como a expressão verbal do esforço comum em conservar ‘para sempre’ a estrutura das relações sociais de um dado grupo. Tudo tem que ser como sempre foi, existe uma resistência social para mudanças que se visualiza no ato de fofocar. “Precisamos que as coisas estejam sempre no lugar, para nos sentirmos inconscientemente seguros”.

Considera que o certo seria que as pessoas compreendessem que cada um tem um mundo próprio, dentro do qual se movimenta. Diante disso, não vem a ser obrigatório que eles colidam ou excluam, podem coexistir juntos. Porém, admite que requeira considerável maturidade pessoal para aceitar que seja assim. “A maioria das pessoas reage com o grito clássico: morte ao divergente. E faz fofoca”.

A sociedade, alimenta-se bastante da irrealização pessoal. Para ela, coibir interesses pessoais e reprimir a criatividade contribui para a manutenção da estrutura social estabelecida; e, nesta intenção, a fofoca corrobora de maneira relevante, daí o interesse social na difusão dela. “A fofoca é o dispositivo social que mantém – ou tende a manter – cada um no seu lugar”.

A massificação proporciona uma sensação de segurança não só para a estrutura social, mas também para as pessoas, o que pode acarretar uma pacificação dos sujeitos frente às imposições sociais, sustentados em pensamentos como: “Ninguém cai quando e enquanto está apoiado na maioria”. E pelo fato de que aceitar as coisas prontas pode ser mais cômodo do que buscar as próprias respostas, pois requer que o autor seja responsável por elas e por si mesmo. “Não se pode negar que viver uniformizado simplifica todas as coisas”.

*Texto baseado no livro Tratado Geral Sobre a Fofoca: Uma Análise da Desconfiança Humana, GAIARSA, J. Â. (1978). São Paulo: Summus.