O Que Eu Faço Com A Minha Raiva?

Uma das emoções que provavelmente nunca nos ensinaram a compreender e com a qual nunca aprendemos a lidar é a raiva. Ela é capaz de nos controlar e nos inundar de ansiedade e muita culpa doentia. Tendemos, portando, a encará-la de modo negativo, e tentamos evita-la ou bloqueá-la a todo custo. Enquanto fazemos isso, permanecemos emocionalmente imaturos e criamos problemas desnecessários para nós mesmos. Nunca seremos totalmente humanos enquanto não formos capazes de lidar com a nossa raiva de cada dia.

Ela é absolutamente necessária para a maturidade e para os relacionamentos humanos saudáveis. Pode e deve ser vista como virtude, se a expressarmos adequadamente e lidarmos apropriadamente com ela.

É importante desenvolvermos uma atitude positiva com relação à raiva que possamos sentir, e, acima de tudo, a reconhecermos. Se a aceitarmos junto com todas as nossas outras emoções, a veremos como outro aspecto da nossa condição humana. Devemos sentir a nossa raiva, lidar com ela e manifestá-la apropriadamente, no momento e no lugar, adequados.

Reprimir a raiva é uma das coisas mais perigosas que podemos fazer a nós mesmos. É importante compreender que à medida que reprimimos nossa raiva nos comportamos de modo desonesto. A repressão e sufocação de sentimentos de raiva é o fio tecido através de muitos problemas emocionais, mentais e de relacionamento.

Quando reagimos excessivamente, nossa raiva está fora de controle. Ela se expressa através da cólera, da ira, da fúria, que podem conduzir à violência.

Tememos a raiva. E por causa disso a reprimimos. Não estaremos no controle da nossa vida enquanto a nossa raiva não for percebida pelo que é. Podemos ter sentimentos de reação excessiva ao ponto de sentirmos até a vontade de matar, mas isso não é errado. O que está errado é o nosso comportamento, e não os nossos sentimentos.

Se a raiva oculta não for trazida à superfície e analisada, ressurgirá de alguma outra maneira. Muitos falam com frequência sobre seus males físicos mas o verdadeiro problema pode ser a raiva com que deixaram de lidar, que foi sufocada, reprimida, evitada. A depressão comum, na maioria dos casos, nada mais é do que a raiva voltada para o interior.

O fato de não lidarmos com a raiva pode conduzir à violência e a explosão de cólera. Alguns são muito controlados, não demonstram irritação, e nós os temos como exemplo. Geralmente encontramos ocultos nesses indivíduos acúmulo de raiva e de outros sentimentos não resolvidos que vêm à tona através de comportamento bizarro.

A raiva é absolutamente necessária para os relacionamentos humanos maduros. Quanto mais intimidade eu tenho com você, mais necessário é que sejamos abertos um com o outro. E isso algumas vezes significa demonstrar a raiva que sentimos um pelo outro. Mas temos medo de fazê-lo. Por quê? Porque sentimos que nos magoaremos. Mas se quisermos ser sinceros um com o outro, certamente teremos que nos magoar mutuamente. Isso é axiomático nos relacionamentos saudáveis. Esse magoar sincero não pode ser evitado nos relacionamentos saudáveis.

Precisamos nos permitir a raiva apropriada, senti-la, lidar com ela e ser capaz de manifestá-la. É esse o significado de assumir a responsabilidade pela nossa vida. É em torno disso que gira a maturidade emocional. E é por isso que a raiva é virtude! Ela é verdadeiramente um aspecto importante da nossa vida. O modo como a usamos influencia enormemente o que nos tornaremos. Ela nos ajuda a ser sinceros, genuínos, a viver vida saudável e vibrante, a confiar, amar e a sermos capazes de oferecer nossa intimidade.

*Texto baseado no livro Curando as Emoções Feridas, PADOVANI, M. H. (1997). São Paulo: Paulus.