Terrorismo Íntimo

A ansiedade no amor é uma das maiores causas de tornar a nossa intimidade altamente contaminada pela preocupação com o poder.

O poder assume um papel tão importante quanto o amor na união de duas pessoas, ele frequentemente se mascara como amor na nossa cultura.

A confusão entre amor e poder pode ser nociva aos relacionamentos e aos indivíduos. Ser capaz de distinguir as proporções relativas de amor e de poder em qualquer relacionamento, e agir de acordo com elas, se faz essencial para a saúde desse relacionamento.

Toda relação íntima deve levar em conta as necessidades de cada membro, tanto para o estar juntos como para a autonomia, sob o risco de uma expansão cancerosa subterrânea da ansiedade que mina todo amor erótico, que acontece quando parceiros íntimos se deixam cair no círculo vicioso dos medos-ansiedades complementares que cada um tem, de ser abandonado ou engolido pelo outro.

Em sua busca de poder, terroristas, na política como no amor, atacam nos pontos mais vulneráveis. Usam ameaças, alimentam o medo e a dúvida, de forma a paralisar a vontade do seu oponente. O terrorismo íntimo se alimenta dos medos, que todos carregamos, desde a infância, de sermos abandonados ou subjugados pelos pais.

Atualmente, deparamo-nos com uma época de máscaras, papéis, e manipulação disfarçados em abertura, comunicação e liberalismo. Se a de Freud foi a época do pai prussiano, que dominava pelo medo, a nossa pode ser caracterizada como a da mãe judia, que domina pelo amor asfixiante gerador de culpa. Isso leva a diferentes modos de intimidade patológica. Pode haver patologias de liberdade, como patologias de autoridade. Se a intimidade no século dezenove sofreu repressão demais, talvez no século vinte sofra por demasiada expressão.

O amor não pode ser controlado; tem de ser livremente dado ou torna-se pouco mais do que a imposição de um drama. A ansiedade é a tentativa de controlar o que não pode ser controlado.

*Texto baseado no livro Terrorismo Íntimo. MILLER, M. V. (1995). Rio de Janeiro: Francisco Alves.